Festival do Minuto

 

Farei um relato aqui sobre uma situação, que apesar de desagradável, me rendeu um pouco de material artístico do qual não pretendo deixar no vácuo. Primeiramente farei um desabafo detalhado sobre os fatos. Caso não se interesse, basta pular até o trecho final com os vídeos e suas devidas explicações.

 *Atualização, optei em pedir pela retirada dos meus vídeos depois de mantê-los na plataforma por um ano.*

 

 No mês de Junho desse ano eu descobri o festival do minuto. Um festival de duração constante e ininterrupta que recebe vídeos com duração de até um minuto em variadas categorias e que existe há mais de vinte anos.

Me interessei em tentar participar enviando vídeos. Primeiramente para concorrer ao troféu do minuto em alguma modalidade. Também vi nisso uma boa oportunidade de praticar a edição de vídeos, já que às vezes fico tempos sem fazer. Passei um mês inteiro bolando ideias para criar todo o material. Aproveitei também para fazer uma homenagem singela e antecipada aos cem anos de Clarice Lispector, que ocorrerá em dezembro. Então criei cinco vídeos diferenciados. Juntei a essa leva a minha primeira tentativa de fazer uma animação, com meus próprios desenhos, que havia feito no início de 2019. Cadastrei tudo no site do festival e esperei para ver o que poderia resultar. Pacientemente fui acompanhando a classificação e número de visualizações.

Para avaliar os vídeos no site do festival é necessário fazer cadastro e realizar login. Então muitas pessoas não puderam dar uma avaliação. Ainda assim eu continuei a divulgar os meus vídeos e mantê-los exclusivamente na plataforma do festival.

No primeiro mês que disponibilizei todo o material, tudo ocorreu aparentemente bem. Eu segui a todos os requisitos exigidos e acreditava que não sofreria qualquer tipo de boicote agindo dessa forma. Porém, ainda assim ocorreu algo bem desagradável. Um dos vídeos que fiz, contendo imagens de nudez, foi praticamente boicotado. Deixou de aparecer na busca e nas categorias as quais eu marquei para que concorressem.

Uma das explicações para isso ter acontecido foi a seguinte. Ao cadastrar vídeos no site do festival há uma opção que nos possibilita marcar o material como conteúdo adulto. Por saber que muita gente considera nudez como conteúdo adulto, preferi ser honesto e classificar o vídeo especificamente assim. Também quis evitar tormento por conta de gente conservadora e de mente fechada me enchendo com seu falso moralismo. O simples fato de o vídeo ter sido aceito para ser exibidos no site por um mês inteiro me deixou com a impressão de que os organizadores e o júri que avaliam o material não acreditavam que eu estivesse ferindo as regras da plataforma. Foi um ledo engano.

Ao perceber o sumiço de meus vídeos questionei, através de e-mail, aos responsáveis. A resposta que obtive foi a de que o sistema do site havia passado por manutenção e com isso recebeu atualizações. E que meus vídeos ainda estavam lá. Porém, graças à classificação de conteúdo adulto, que marquei no ato da inscrição, fez com que os dois vídeos a partir daquele momento só pudessem ser avistados por aqueles que fazem login no site. Ainda assim fiz a busca e não os encontrei concorrendo em nenhuma das categorias as quais eu havia cadastrado. E o link de acesso, que eu havia pegado antes, também não funcionava mais. Só era possível encontra-los ao digitar o nome no campo de busca. Em outras palavras, foi dificultada toda maneira de serem visualizados. Particularmente esse acontecido me fez me sentir totalmente desmotivado. Deixei de divulgar meus vídeos e de acompanhar o andamento do festival.

O tempo de vigência das categorias do festival venceu. Elas se renovam de tempos em tempos, mas eu não poderei concorrer novamente com os mesmos vídeos. Acabou que eu não ganhei nadica de nada. Sei muito bem que meus vídeos não são os mais incríveis do mundo, afinal não sou um vídeo maker (embora tenha capacidade para ser), mas alguns deles estavam recebendo boas avaliações e visualizações. No fim, fazendo um balanço total da minha participação, a minha experiência com o festival do minuto não se mostrou tão frutífera. Mas independente dessa situação toda de censura e boicote velado, não vou ficar fazendo uma propaganda negativa em torno do festival em si. Mesmo porque a plataforma tem uma proposta muito interessante e carrega em seu acervo uma infinidade de trabalhos muito interessantes que valem a pena serem vistos. Isso além de ela também ajudar a fomentar a cultura tão menosprezada por uma parcela ignorante da população.

Espero que compreendam que essa foi a minha experiência particular e que outras pessoas não passarão necessariamente pela mesma coisa. Só fiz esse desabafo todo porque estava me sentindo um tanto sufocado com a situação em si. Depois de tudo, optei em retirar meus vídeos do site do festival do minuto daqui há três meses conforme as regras da plataforma determinam. E é vida que segue.

 

 

O verdadeiro motivo por toda essa postagem é o fato de que decidi colocar todos esses vídeos por aqui e totalmente na íntegra, com uma breve explicação sobre a concepção de cada um. Então vamos lá. Segue o fluxo.



O entardecer

Esse não tem nenhum segredo. Quando eu estava fazendo curso de computação gráfica há um ano e meio, me senti instigado a fazer alguns testes para ver como que meus desenhos poderiam se comportar em uma animação básica e simples. Para não ficar vazio de tudo, compus de improviso uma trilha sonora. Aliás, vale ressaltar que para absolutamente TODOS os meus vídeos, fui eu mesmo quem compôs as trilhas. Já que o festival do minuto é muito rígido (e com toda razão) a respeito de direitos autorais.

Apesar de ser esse o vídeo que teve com maior número de visualização no festival do minuto, eu o inseri por lá apenas para ter uma percepção de como a plataforma funciona, para só então fazer os vídeos seguintes.



Plop

A explicação para esse não é nada excepcional. Por estar envolvido com ilustração infantil, me veio essa ideia de fazer algo muito simples, curto e direto. No final ficou tão singelo que conseguiu ainda agradar algumas pessoas que relataram ter se recordado de suas infâncias por aquele breve minuto.



O começo

Não me canso de dizer que a melhor introdução de livros de todos os tempos, na minha opinião, é a abertura de “A hora da Estrela” da Clarice Lispector. A ideia para o vídeo veio inteira de supetão em uma noite. Esse trecho para mim é muito emblemático. Ao pensar nessa questão sobre o inicio da vida, me vem a mente a imagem de um embrião se formando. Ao me recordar das aulas de biologia que tive na escola me lembrei da série de vídeos que a professora passou para a minha turma lá pelo idos do ano 2000. Ela usou as aulas dela para transmitir a nós o documentário “The Human Body” realizado pela rede BBC. Aquela foi a primeira vez na vida em que vi a cena de um parto natural. E a cena me impactou bastante na ocasião. Juntando as duas ideias, bolei esse vídeo. E graças a toda essa questão artística e conceitual, senti que era sim necessário fazer o desenho de uma grávida completamente nua. Portanto, esse foi um dos vídeos que sofreu o boicote velado do desabafo acima.

Fiz tudo com a maior cautela possível para que absolutamente ninguém se sentisse ofendido com o produto final. Apesar do boicote, a recepção que tive de pessoas próximas foi surpreendente. Muitos se sentiram tocados por algum aspecto. E isso foi para mim algo muito positivo. Só me deu mais vontade de seguir com as demais ideias.

 




O grito

Mais um trecho de “A hora da Estrela” que me impacta muito. Originalmente eu não pretendia fazer vídeo para essa passagem, mas ao folhear o livro para pescar o trecho que seria a base para a confecção de “Anjos”, acabei revendo o trecho; “porque há o direito ao grito. Então eu grito.”. A ideia então veio com tudo de maneira completamente inevitável. A intenção aqui foi simbolizar o grito propriamente dito. Causando essa sensação de desconforto por conta dos ruídos captados e um pouco de agonia por conta do movimento das imagens. Seguido do alívio físico que sentimos após soltar um berro ocasionado por uma situação que nos faça nos sentir sufocados emocionalmente. A técnica aplicada foi muito simples, mas me pareceu eficaz.




Anjos

Pelo visto “A hora da Estrela” me marcou muito mais do que eu imaginava. Para esse eu quis me arriscar em tentar criar algo mais complexo. Tentei fazer a minha versão visual de Macabéa. Tarefa muito complicada porque a atuação da atriz Marcélia Cartaxo, na versão cinematográfica dessa obra, foi para mim magistral. Não consigo ver a Macabéa de outra forma. Assim como não consigo olhar para a atriz sem pensar na personagem.

Fiz questão de manter destacado alguns detalhes descritos pela própria Clarice Lispector a respeito de sua personagem. Coisas como o fato de Macabéa apenas comer sanduiche e beber coca-cola e o fato de ela dormir com a boca aberta não deixei passar despercebido. Além do radinho de pilha onde ela escutava a rádio relógio, antes de dormir, todos os dias em um volume bem baixo.

O cenário é outro detalhe a parte que quis usar para incrementar. Talvez seja algo imperceptível, mas na primeira parte do vídeo, quando a personagem está sonhando, eu a coloquei sentada em um banco de praça. Mas esse não é um lugar aleatório. Essa praça existe de verdade e fica diante da casa onde Clarice morou quando ainda era criança, lá em Recife (PE). Acho que a estátua da Clarice que fica nessa praça é mais bonita do que a que fica na orla de Copa Cabana no Rio.